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Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

ENCONTRO COM DEUS NO COTIDIANO

AS DORES DE UMA ROSA: PLENITUDE DE SEU SER
Zé Ricardo, sj

Tardezinha. O sol piscava e se despedia, acenando com seus últimos raios. Uma xícara de café para me despedir também dos trabalhos daquele dia. Entre um gole e outro, refletia, a vida é cruel, injusta e olhando, muitas vidas, veio na mente uma metáfora de que seja a vida uma luta impotente ao tentar respirar profundo uma gota de ar como sendo as profundezas do mar.

A angustia me invadiu como ladrona e intrometida. Com sua presença, a metáfora ganhou força no espirito e nossos esforços por transformar as retinas num lindo álbum de fotografias descem esgoto abaixo. Nao vale a pena o tal viver quando o sofrimento e a dor sao nossas piores penas. A desiluçao era ferida em meu olhar divagando por muitos lugares.

Cansado de dar voltas, depois de meu último gole de café, meu olhar fixou-se em uma formiga, tentando escalar um pé de rosas. Pobrezinha, pensava, tantos espinhos enfrentará, tudo por conseguir roubar umas pétalas vermelhas e apetitosas. A formiguinha, valente, continuou seu intento por entre as pontiagudas lanças. Com curiosidade eu a seguia em sua aventura, ou seria em seu esforço para dar sentido a algo de sua própria vida? A vi passar pelos primeiros botoes de rosa e, nesse exato momento, a formiga sumiu de minhas retinas. Pensar nos botoes e nas rosas que estavam pertos me fez refletir no todo da roseira.

A Rosa, enquanto cresce e se desenvolve junto aos espinhos, que sao incomodos e causam fortes dores, mantem-se firme em sua existencia audaz para ganhar forma e sentido. Suporta, valente, as agruras de seu crescimento ainda que nao tenha conciencia da beleza que se tornará para a Natureza. Sabe o que quer, como a formiga ao subir a roseira, várias vezes caiu devido ao vento, mas voltava convicta do que queria. A Rosa cresceu no aperto dos espinhos.

Os primeiros raios denunciaram o contorno das pétalas e a cor forte da Rosa que vencera os espinhos, continuando entre os espinhos como que mostrando que a presença e a oposiçao deles nunca matará o ser de uma botao. Inclusive, na oposiçao que fazem, até mesmo a presença deles se tornam, contraditoriamente, segurança para elas.
O vento passou levando a fragancia de seu corpo, a brisa debruçou-se sobre seu ventre e o amanhecer beijou levemente cada pétala de seu ser, como mensageiros do amor e do cuidado absurdo do Criador.

A confiança me invadiu como pétala caída, convicta de seu existir para os demais. Ela estava feliz ao proporcionar beleza e encanto a muitos olhares. Pétalas caidas, eram contraditoriamente, vidas que valem a pena. Vidas que nao se permitiram sufocar, debilitar, deprimir e serem extintas por espinhos de uma mesma raiz.


Inicio de noite. Nao havia mais café. A luz piscava em suas estrelas e me dava boas-vindas. Eu refletia a força que tem os espinhos, mas acima de tudo, a imagem da rosa e da pétalas caídas me ajudava a contemplar a força invencivel da persistência em querer ser o que vamos descobrindo no caminho, ser nós mesmos dentro de mundos estranhos a nossos sonhos e que às vezes, estes espinhos matam a posibilidade de muitas rosas. A formiga, nao a encontrei mais na roseira. As pálpebras voltaram a seu ritmo normal de trabalho da máquina humana. Meu olhar e meu espirito estavam encharcados de uma gota de ar como as profundezas de um mar. Nao havia mais café. Permaneceram eu, uma xícara vazia e minha fé.


Andanças de um pescador de vivências

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